Conheça o arquiteto que vai projetar a nova ponte de Barcelos
Santiago Calatrava é um arquiteto reconhecido mundialmente, famoso por projetar grandes obras, mas também carrega consigo outro tipo de reputação.
Há sete meses, escrevi um artigo com o título "Barcelos quer construir uma nova ponte de 45 milhões que não faz sentido nenhum". Apontei todas as razões que tornam esta nova ponte rodoviária, nos moldes propostos pela Câmara Municipal, uma má opção.
Mas, deixando esses argumentos de lado por um momento, vamos imaginar que construir uma ponte naquele local é, afinal, uma excelente ideia e que é mesmo preciso avançar com a obra. Nesse caso, vale a pena conhecer o gabinete de arquitetura que a Câmara escolheu para desenhar esta infraestrutura.
Santiago Calatrava é um arquiteto espanhol muito conhecido em todo o mundo por desenhar grandes estruturas que, para além de serem funcionais, procuram ser verdadeiras obras de arte.
Além disso, o seu gabinete de arquitetura é conhecido por:
Excedentes orçamentais massivos
Talvez a crítica mais apontada a Calatrava seja a de que os seus projetos emblemáticos ultrapassam, quase sempre e por larga margem, os orçamentos iniciais. Veja-se alguns exemplos:
- O World Trade Center Hub, em Nova Iorque, passou dos 2 mil milhões de dólares previstos para cerca de 4 mil milhões;
- O Palau de les Arts, em Valência, disparou para os 300 milhões de euros, e os honorários do próprio Calatrava terão chegado, segundo consta, aos 94 milhões;
- O Auditório de Tenerife quase triplicou o custo, ficando em 74 milhões de euros, quando o orçamento inicial era de 26,7 milhões;
- A Ponte da Constituição, em Veneza, acabou por custar 11,6 milhões de euros, contra uma estimativa inicial de 7 milhões.
Feitas estas contas, e sabendo que o custo estimado para Barcelos é agora de 50 milhões de euros (eram 45 há sete meses), alguém acredita mesmo que esta ponte vai ficar por menos de 100 milhões para o concelho?
Problemas funcionais e estruturais
Os críticos apontam que as suas formas escultóricas dão mais importância à estética do que à viabilidade técnica e à funcionalidade, o que acaba por levar a problemas de degradação e de segurança. A ponte Zubizuri, em Bilbau, e a ponte da Constituição, em Veneza, têm ladrilhos de vidro que, quando molhados, ficam perigosamente escorregadios e já provocaram inúmeras quedas e fraturas. O Palau de les Arts, em Valência, que para além de ter estourado o orçamento, ainda teve problemas prematuros no telhado que levou a cidade a processar o arquiteto (mais sobre isso a seguir). A Adega Ysios sofre com infiltrações persistentes, e o Centro de Convenções de Oviedo chegou a ter bancadas desabadas.
Se a ponte é mesmo necessária, qual a lógica de contratar alguém conhecido por valorizar mais o design do que a funcionalidade?
Batalhas legais e multas
Todos estes problemas deram obviamente origem a vários processos judiciais:
- Em Veneza, um tribunal italiano considerou-o culpado de "negligência macroscópica" e multou-o em 78 mil euros;
- Em Oviedo, foi condenado a pagar 3,2 milhões de euros de indemnização;
- Em Tenerife, após anos de litígio, concordou em partilhar os custos de reparação, que chegaram aos 17,6 milhões de euros.
Para Concluir
Barcelos diz que vai construir a ponte porque é mesmo necessária. Mas, para isso, contrata um dos arquitetos mais caros e polémicos do mundo, conhecido por desenhar infraestruturas que são obras de arte antes de serem funcionais. Isto invalida o argumento da necessidade. Se a ponte fizesse mesmo falta, a lógica era contratar alguém que valorizasse, em primeiro lugar, a funcionalidade, e não alguém que vai erguer um monumento ao ego.
Por estes dias, Viana do Castelo vai abrir ao trânsito uma nova ponte que tem pelo menos o dobro do comprimento daquela que se quer construir em Barcelos, e mesmo assim, ficou concluída por menos de metade do valor que se estima para esta nova "obra de arte" em Barcelos.
Há pouco tempo, o Município saiu de uma situação complicada com o escândalo do processo das Águas de Barcelos, em que uma conta de 200 milhões de euros, resultante de uma concessão mal feita, ameaçou levar todo o concelho à bancarrota. Agora, a ideia é avançar com a construção de uma ponte de 50 milhões com alguém conhecido por duplicar e triplicar os orçamentos iniciais. E, para piorar, há uma forte probabilidade de a infraestrutura ter problemas de funcionalidade e/ou problemas estruturais que obrigam a gastar ainda mais dinheiro, tanto para a arranjar as deficiências como nos tribunais. Tem tudo para correr bem!
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