Barcelos quer construir uma nova ponte de 45 milhões que não faz sentido nenhum
Este artigo enumera todas as razões pela qual a construção desta nova ponte é um desperdício de recursos e um péssimo planeamento urbanístico.
Barcelos recuperou uma ideia antiga de construir a quinta travessia sobre o rio Cávado na cidade. A proposta liga as duas margens perto do centro histórico através de uma nova travessia rodoviária. A Câmara Municipal pretende fechar o tráfego automóvel na ponte medieval e, para isso, planeia gastar 45 milhões de euros na construção de uma nova ponte. Esta é a explicação apresentada pela autarquia para a realização da obra.
O valor elevado para uma travessia relativamente curta é justificado pelo facto de o executivo não se limitar a construir uma ponte funcional simples, como a Ponte de Santa Eugénia ou a chamada “Ponte Nova” junto à Staples. A opção passa por uma estrutura apresentada como uma obra de arte, em que só o projeto ascende a cerca de 4 milhões de euros.
Entender Barcelos
Primeiro é preciso entender a distribuição da população do Município. Barcelos é um concelho grande, e ao contrário de por exemplo Braga, onde a grande maioria das pessoas vivem dentro do perímetro urbano da cidade que dá nome ao Município, Barcelos é precisamente o contrário. A esmagadora maioria dos barcelenses vive em ambiente suburbano ou rural numa das 63 freguesias dos 380 km² de território.
Não existem números oficiais, e toda a gente vai discordar ligeiramente de quais as freguesias devem ser consideradas parte da cidade, mas uma estimativa educada coloca a população da cidade em cerca de 25 a 30 mil habitantes na melhor das hipóteses. Ou seja, na melhor das estimativas apenas 25% dos 117 mil habitantes vivem dentro da cidade.
Existe ainda a circular urbana, uma via rápida que circunda a cidade por todos os lados. Quer dizer, a norte a cidade já cresceu para além desta via rápida em vários locais, mas principalmente em Vila Boa e Arcozelo, onde a maioria das pessoas destas freguesias mora fora da circular e não dentro.
A circular urbana assenta num princípio básico e consensual no urbanismo, onde o tráfego automóvel deve contornar o centro e entrar na malha urbana apenas quando está perto do destino. Esta via foi planeada para cumprir esse papel e funciona como estrutura base do ordenamento viário da cidade. Apesar disso, permanece inacabada há cerca de 30 anos, com um troço em falta que limita a eficácia do percurso e empurra mais trânsito para zonas que não foram pensadas para o absorver. Os últimos 500 metros estão agora previstos para conclusão em 2026, o que encerrará finalmente um projeto que deveria ter sido concluído há décadas.
Posto isto, uma nova travessia rodoviária naquele local não faz sentido porque:
1. Não serve a esmagadora maioria da população
Sendo esta uma nova ponte no centro da cidade, os potenciais utilizadores vivem todos dentro da via rápida circular. Se alguém vive ou trabalha fora dela, certamente irá utilizar a via rápida porque evita passadeiras, cruzamentos, lombas, semáforos, rotundas e todos os outros fatores complexos que definem uma cidade e dificultam o tráfego automóvel.
Depois, se apenas 25% dos Barcelenses vivem na cidade, menos que isso vivem dentro da circular urbana. Como já foi mencionado anteriormente, apenas 18% da maior freguesia do concelho (Arcozelo) está do lado de dentro da circular e Vila Boa está praticamente toda fora também. Fazendo um pequeno exercício de estimativa podemos calcular quantas pessoas vivem do lado de dentro da via rápida. Para apurar este número utilizei os seguintes valores:
- Freguesia de Barcelos: 5000 habitantes arredondado para cima
- Freguesia de Vila Frescaínha S. Martinho: 2400 habitantes arredondado para cima
- Freguesia de Arcozelo: 12 824 / 2 = 6412 habitantes, assumindo que metade vive do lado de dentro
- Freguesia de Barcelinhos: 2 000 habitantes arredondado para cima para compensar as poucas casas de Alvelos e Rio Covo Santa Eugénia que ficam dentro.
A soma destes valores dá 15812, ao qual vamos arredondar para 16 mil habitantes. Em Barcelos no ano de 2026, vivem 117 mil pessoas, cerca de 16 mil dentro da circular urbana e 101 mil fora. Tendo em conta estes números, gostaria de introduzir o seguinte diagrama:

Como é possível considerar normal usar o voto e os impostos de 117 mil pessoas para beneficiar, no máximo, cerca de 16 mil. Não existe argumento sólido que apresente esta ponte como útil para quem vive fora da circular, porque não é. Um automobilista de Carapeços no norte não vai usar esta travessia para chegar ao E.Leclerc na margem sul. Um veículo que venha da zona industrial da Várzea no sul também não vai escolher esta ponte para entregar produtos nas escolas secundárias da cidade. Estes utilizadores vão apenas usar a via rápida em volta da cidade, sendo que este tipo de utilizador é a esmagadora maioria dos utilizadores.
O cenário inverso é até mais provável. Nem todos os residentes de dentro da circular vão optar pela nova travessia. Quem vive mais perto de um nó da via rápida certamente a irá escolher pela maior eficiência e conforto do percurso. O esquema seguinte mostra a cores quem ficará mais próximo da nova ponte e ultimamente quem serão os reais beneficiários. A preto e branco quem está de fora ou do lado de dentro mas mais próximo de um nó da circular urbana.

Resumidamente, quem realmente beneficia com esta ponte são os habitantes do centro histórico, juntamente com o edifício sede da Câmara Municipal, e alguns dos terrenos menos urbanizados da cidade nas freguesias de Barcelinhos e S. Martinho. O que deve dar qualquer coisa como 9400 habitantes, é surreal.
Será que um habitante de um apartamento junto da estação de caminhos de ferro vai mesmo usar esta nova ponte para ir à staples? Claro que não, vai descer à via rápida, vai fazer um percurso ligeiramente mais longo mas muito mais rápido e confortável. Vai circular entre 70 a 90km/h, passar apenas por 1 rotunda e 1 nó desnivelado até lá chegar. Se o inicio ou fim de viagem for fora da zona colorida, é extremamente improvável que a nova ponte seja utilizada.
2. Não existe escoamento de tráfego em ambas as margens
Estamos prestes a construir uma ponte larga, com elevada capacidade teórica, que liga dois pontos já hoje saturados e sem capacidade de escoamento.
De um lado fica o conhecido “TOP” de Barcelinhos, um cruzamento onde convergem quatro ruas sem qualquer sinal de STOP, e onde a circulação já é problemática em várias horas do dia.

Do outro lado surge a rotunda do Mercadona, que já se encontra sobrelotada mesmo sem o fluxo adicional que esta ponte irá introduzir. Trata-se de um ponto crítico de acesso à zona oeste da cidade, funcionando como um verdadeiro gargalo diário para quem entra ou sai do centro.

Em termos práticos, estamos a falar de uma via com capacidade teórica para cerca de 3 200 veículos por hora a descarregar tráfego em dois pontos já saturados. É um péssimo retorno do investimento. Se a intenção fosse gastar dinheiro em infraestruturas rodoviárias, faria muito mais sentido investir na melhoria da circular urbana em pontos estratégicos ou na construção de variantes às estradas por onde entra a maioria dos barcelenses. Nesses locais, pelo menos, a capacidade criada seria efetivamente utilizada.
3. Desrespeita princípios básicos de urbanismo
Há décadas que existe consenso quanto à necessidade de retirar o tráfego automóvel dos centros urbanos, sobretudo dos centros históricos. Circulares como a de Barcelos, construída nas décadas de 80 e 90, seguem essa lógica ao afastar o tráfego de passagem das zonas residenciais.
A nova ponte faz exatamente o oposto: atrai tráfego de atravessamento para o coração da cidade, junto ao centro histórico. Isto contraria princípios básicos de planeamento urbano. O espaço central deve ser um destino, nunca um corredor de passagem.
A incapacidade de distinguir os diferentes usos de uma via rodoviária está entre os problemas mais graves do urbanismo em Portugal.
4. Coloca a carroça à frente dos bois
A circular urbana ainda nem sequer está concluída e, mesmo assim, avança-se para uma obra estruturante sem perceber como o tráfego vai reagir a uma alteração tão profunda na dinâmica da cidade. A Câmara Municipal deveria concluir primeiro o nó de Santa Eugénia, aguardar um ou dois anos e observar o comportamento do trânsito, tomando decisões com base em dados reais.
Após a abertura dos últimos 500 metros da circular, é expectável que surjam novos problemas em pontos que hoje passam despercebidos. Esse dinheiro fará falta para intervir onde o sistema viário revelar fragilidades reais.
5. A ponte Medieval não precisa de substituta
O fecho ao tráfego automóvel pode acontecer assim que a circular urbana esteja concluída, sem necessidade de construir uma nova ponte. Quem circula de carro faz o percurso pela circular; se a deslocação for curta, como entre Barcelinhos e a Câmara Municipal, a opção lógica é ir a pé.
A ponte medieval já encerra ao trânsito em vários dias do ano e a cidade continua a funcionar. As corporações de bombeiros têm acesso direto à via rápida em ambas as margens, o novo hospital ficará fora da circular e as zonas industriais também se localizam fora do centro urbano.
Defender uma nova ponte rodoviária neste local revela um pensamento ultrapassado e desligado do urbanismo contemporâneo.
Em vez desta ponte podia-se fazer...
Variantes do lado Norte e Este

Variantes da N103 (Freixo, Ponte de Lima) para permitir suprimir a passagem de nível de Arcozelo e variante da N205 (Prado, Vila Verde) para desviar o transito de zonas residenciais em S. Veríssimo. Qualquer uma destas obras traria muito mais retorno no investimento e nenhuma ficaria mais cara que a ponte. E acima de tudo resolvia um problema real em vez de inventar um.
Conexão com a N103

A falta de espaço torna muito difícil implementar um nó de ligação completo aqui, mas estas duas rampas de acesso à mesma via de sentido seriam um compromisso interessante. Os habitantes da zona sul, desde Macieira de Rates a Alvelos, poderiam passar a usar estas duas rampas para aceder à via rápida de forma muito mais fácil, sem passar por todas as lombas, cruzamentos e rotundas que fazem parte do trajeto atualmente. As Zonas residenciais de Barcelinhos também passavam a receber muito menos tráfego de passagem.
Mudar o nó da Staples


Eu sei que esta infraestrutura é da responsabilidade da IP, mas onde está a ser feito o nó de Santa Eugénia também é, e a Câmara Municipal arranjou maneira de o fazer à sua responsabilidade. Se têm 45 milhões para gastar, chegava e sobrava para repetir a gracinha neste local.
Este nó sozinho dava para escrever um artigo inteiro, por isso não vou alongar muito aqui. Simplesmente fazer alguma coisa para acabar com estas duas aberrações, era dinheiro mais bem gasto do que na nova ponte. Acho que ainda não morreram pessoas suficientes aqui para ser feito alguma coisa.
Desnivelar rotunda junto à central de Camionagem

Esta obra deixa de ser necessária caso fosse construida a outra sugestão da variante da N205, mas caso essa variante não avance, este viaduto passa a fazer todo o sentido, uma vez que o tráfego nesta zona vai com certeza aumentar. Não sei se é do conhecimento da Câmara, mas esta rotunda já se encontra hoje congestionada, mesmo sem o tráfego extra que o nó de Santa Eugénia vai descarregar aqui assim que estiver aberto.
A mesma ponte, mas noutro local

Se querem tanto construir uma ponte, o Município não é só a cidade, construam outra entre Esposende e Barcelos. Do lado oeste só existem 2 e são fora do concelho. Uma delas é auto estrada e não pode ser utilizada por todos, a outra está a cair de podre.
As coisas bem negociadas ainda dava para dividir custos com o Município de Esposende se ela fosse feita na fronteira dos dois municípios. Retirava-se tráfego do problemático nó da Staples e a travessia do rio Cávado ganhava outra redundância, coisa que mais uma travessia no meio da confusão da cidade é incapaz de oferecer.
Ou se calhar pegavam no dinheiro e mantinham as pontes que já são da responsabilidade do Município em condições dignas. A da Pousa está pelas horas da morte e a de Santa Eugénia para lá caminha.
Ou Ainda...
- Melhorar a cobertura de saneamento básico, mais de 1/3 dos Barcelenses ainda não tem acesso a saneamento básico, e muitos nem a água canalizada;
- Retirar o Amianto das Escolas e melhorar o conforto de quem lá estuda ou trabalha;
- Em vez de construir mais infraestrutura deveria tratar melhor da que já possui, nomeadamente estradas municipais que se encontram em estado lastimável;
- Realizar obras de melhorias pontuais em locais conhecidos por serem perigosos ou não cumprirem os requisitos mínimos;
- Construir mais e melhores passeios para que as pessoas possam não só andar mas praticar exercício físico. Só quem corre sabe que na maior parte das vezes não tem passeio, e quando tem mais vale correr na faixa de rodagem de tão desnivelado que está;
- Investir numa polícia municipal tirar os carros de cima desses passeios de uma vez por todas.
Conclusão
Este projeto não só não resolve um problema real como vai inevitavelmente criar outros. Consome recursos públicos escassos que poderiam ser utilizados em outros projetos bem mais prioritários do que mais uma travessia rodoviária onde já existem várias. Concentra benefícios numa minoria bem delimitada, ignorando dados básicos sobre população, mobilidade e organização do território. Fica claro que a nova ponte naquele local não melhora o funcionamento da cidade, tanto do ponto de vista rodoviário como do ponto de vista do urbanismo.
Os impostos de todos devem servir soluções coletivas, resolver problemas reais, e não para construir símbolos urbanos bacocos caros disfarçados de progresso. Uma decisão deste peso condiciona o Município durante muitos anos e reduz a capacidade de resposta a problemas futuros. Barcelos não precisa desta ponte, mas mesmo que precisasse, existem tantos outros problemas que deveriam surgir bem mais acima na lista de prioridades do que simplesmente poupar 1 ou 2 minutos numa viagem de carro de 15.
Barcelos parece aquele miúdo irresponsável nos seus anos 20 que faz um crédito automóvel para comprar um carro para além do que tem possibilidades de pagar apenas para impressionar os outros, mas depois anda com os dentes todos tortos e cheios de caries porque não tem dinheiro para os arranjar. Pode parecer uma analogia sensacionalista mas não é, o carro é a ponte, e os dentes estragados são a falta de saneamento básico, estradas municipais rebentadas e escolas com falta de condições.
Barcelos é uma cidade que continua agarrada ao passado, com ideias ultrapassadas da década de 70, a tentar enfiar o maior número possível de carros privados no seu centro como se isso fosse resolver alguma coisa. Enquanto isso cidades espalhadas um pouco por todo o mundo já estão a desfazer o tipo de erro que Barcelos está prestes a começar, ao restringir o acesso de carros privados ao centro, e com a demolição de estradas que rasgavam a malha urbana, passando demasiado próximas ao centro.